Alexitimia: Quando Você Sente, Mas Não Sabe o Quê
- Priscila Stacul

- há 14 horas
- 4 min de leitura

Você já sentiu um "nó na garganta", um "frio na barriga" ou um "aperto no peito", mas se alguém perguntasse o que era, sua resposta seria um vago "não sei, algo ruim"? Ou talvez, ao passar por uma situação intensa, sua descrição do dia se resuma a um simples "foi normal"?
Se isso soa familiar, bem-vindo ao intrigante universo da alexitimia. E não, não é o nome de uma nova poção de Hogwarts, mas sim um conceito da psicologia que descreve uma dificuldade real em identificar e expressar emoções.
Vamos desvendar esse mistério juntos.
O Que Raios é Alexitimia?
O nome pode parecer complexo, mas sua origem ajuda a explicar tudo. Vem do grego: a (falta), lexis (palavra) e thymos (emoção). Juntando as peças, temos: "falta de palavras para as emoções".
Importante: A alexitimia não é um transtorno mental por si só, como a depressão ou a ansiedade. Ela é considerada um traço de personalidade ou um constructo cognitivo-afetivo. Em outras palavras, é um jeito de funcionar, uma característica que pode estar presente em qualquer pessoa, mas que é muito comum em certos quadros clínicos.
Uma pessoa com alexitimia sente as emoções no corpo (a raiva que acelera o coração, a tristeza que pesa nos ombros), mas tem uma imensa dificuldade em conectar essa sensação física a uma palavra como "raiva" ou "tristeza". É como ter uma orquestra tocando dentro de você, mas sem um maestro para dizer qual instrumento está fazendo qual som.
Os Sinais Clássicos da Alexitimia: Você se Identifica?
Como saber se a alexitimia anda batendo na sua porta? Geralmente, ela se manifesta através de quatro pilares:
Dificuldade em Identificar Sentimentos: A pessoa sente a "tempestade fisiológica" (coração acelerado, sudorese, tensão), mas não consegue nomear a emoção correspondente.
Dificuldade em Descrever Sentimentos para os Outros: A clássica conversa: "Como você se sentiu com isso?" "Ah, sei lá. Foi ruim". A dificuldade não é por vergonha, mas por uma genuína incapacidade de verbalizar a experiência interna.
Estilo de Pensamento Focado no Exterior (Concreto): A pessoa tende a se concentrar em eventos externos e detalhes práticos, em vez de se voltar para suas fantasias, sonhos e sentimentos. O foco é no "o que aconteceu" e não no "o que eu senti sobre o que aconteceu".
Vida de Fantasia e Imaginação Limitada: Sonhar acordado, criar cenários mentais ou se perder em um mundo de imaginação é algo raro.
É aquele amigo que, depois de assistir ao final emocionante de um filme que fez todo mundo chorar, comenta: "É, a fotografia era boa". Ele não é um robô sem coração; ele apenas não tem as ferramentas para processar e expressar a avalanche emocional que talvez tenha sentido.
De Onde Vem Isso? As Causas da "Cegueira Emocional"
Não há uma única resposta, mas a ciência aponta para uma combinação de fatores neurobiológicos e psicossociais.
Fatores Neurobiológicos: Estudos sugerem que pode haver uma espécie de "curto-circuito" na comunicação entre as áreas do cérebro responsáveis pelo processamento das emoções (como o sistema límbico) e as áreas responsáveis pela cognição e linguagem (o córtex pré-frontal). A emoção é gerada, mas o "e-mail" com a descrição dela não chega ao destino para ser lido.
Fatores Psicossociais e de Desenvolvimento: Aqui a psicologia clínica brilha. Muitas vezes, a alexitimia é uma estratégia de sobrevivência aprendida.
Trauma: Após eventos traumáticos, desconectar-se das emoções pode ser um mecanismo de defesa para evitar uma dor insuportável.
Invalidação na Infância: Crianças criadas em ambientes onde emoções eram punidas, ignoradas ou ridicularizadas ("Engole o choro!", "Isso não é motivo pra ficar com raiva!") podem aprender que sentir é perigoso ou inútil, desaprendendo a se conectar com seu mundo interno.
Alexitimia e Sua Relação com Outros Quadros
A alexitimia raramente anda sozinha. Ela é como aquele parente que sempre aparece de penetra em outras festas. É frequentemente associada a:
Transtornos do Espectro Autista (TEA): É uma comorbidade muito comum, embora nem toda pessoa com TEA tenha alexitimia, e vice-versa.
Depressão e Ansiedade: A incapacidade de processar emoções pode levar a um sentimento de vazio e desamparo, alimentando quadros depressivos.
Transtornos Alimentares: A dificuldade em lidar com sentimentos pode levar a pessoa a usar a comida como uma forma de regular emoções que ela não compreende.
Doenças Psicossomáticas: Se a mente não consegue processar a emoção em forma de sentimento, o corpo "grita". Dores crônicas, fibromialgia, problemas gastrointestinais e doenças de pele podem ter uma forte ligação com emoções não expressas.
Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT): Como mencionado, é um mecanismo de defesa comum após um trauma.
"Então Eu Sou Um Robô?"
Não! Esse é o ponto mais importante. Pessoas com alexitimia não são frias, apáticas ou desprovidas de sentimentos. Pelo contrário, muitas vezes elas sentem de forma avassaladora, mas não têm o "manual de instruções" para entender o que está acontecendo.
A angústia de sentir algo intenso e desconhecido pode ser muito maior do que a dor de uma emoção claramente identificada.
Luz no Fim do Túnel: Tratamento e Como Lidar
Se você se identificou, respire fundo. Não só existe um nome para isso, como também existe um caminho. A psicoterapia é a principal ferramenta para essa jornada de alfabetização emocional. No processo terapêutico, o objetivo é ajudar a pessoa a:
Construir um Vocabulário Emocional: Usando ferramentas como rodas de emoções, o terapeuta ajuda o paciente a aprender a nomear o que sente.
Conectar Sensações Físicas a Emoções: "Esse aperto no peito que você sente quando seu chefe te critica... vamos chamá-lo de ansiedade ou raiva? O que parece mais certo?".
Desenvolver a Mentalização: A capacidade de pensar sobre os próprios pensamentos e sentimentos, e também sobre os dos outros.
Técnicas de Mindfulness e Consciência Corporal: Ajudam a pessoa a prestar atenção, sem julgamento, às suas sensações internas, criando uma ponte entre corpo e mente.
É um trabalho artesanal, uma verdadeira jornada de autodescoberta para aprender uma linguagem que nunca foi ensinada.
A alexitimia não é uma sentença de uma vida sem cores emocionais. É um convite para olhar para dentro com curiosidade e coragem. Reconhecer essa dificuldade é o primeiro e mais poderoso passo para construir uma relação mais rica e consciente consigo mesmo e com os outros.
Se você sente que vive em um mundo emocional em preto e branco, saiba que a terapia pode lhe entregar a paleta de cores. Procurar ajuda não é sinal de fraqueza, mas sim o ato mais corajoso de quem deseja se conhecer de verdade.




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